E quase ninguém foi preparado para isso. Uma reflexão a partir de Peter Diamandis sobre longevidade e sobre o que ela exige de quem se aposenta agora.
Por Carlos Aldan
Fomos convidados, há pouco, a ajudar 180 servidores de uma instituição pública brasileira a se prepararem para a aposentadoria. É um trabalho de que gostamos e no qual acreditamos: gente madura de ofício, diante da maior transição da vida adulta. Aceitamos o convite pensando, como quase todo mundo pensa, em ajudá-los a viver bem o último terço da vida. Foi então que reli um ensaio recente de Peter Diamandis sobre longevidade e me lembrei das vezes em que ouvi David Sinclair falar ao vivo. Percebi que a premissa do meu próprio raciocínio estava errada. O que essas pessoas têm pela frente não é o último terço da vida. Em pouco tempo, pode ser a metade dela.
O relógio que a evolução deixou ligado
O argumento de Diamandis começa por um incômodo biológico. A natureza nunca nos projetou para viver muito. Ele lembra que, na savana africana, chegávamos à puberdade aos 12 ou 13, tínhamos filhos quase em seguida e, por volta dos 27, já éramos avós. A regra que a evolução seguia era inapelável: alimento era escasso, e permanecer vivo consumindo as calorias dos netos condenava a própria linhagem. Fomos construídos para atingir o pico no fim da casa dos vinte, passar os genes adiante e sair de cena. Esse relógio, escreve ele, continua funcionando dentro de nós: na testosterona que cai cerca de 1% ao ano depois dos 30, na involução do timo, no esgotamento das células-tronco, na perda de massa muscular. São as configurações de fábrica do organismo.
Só que, como ele mesmo observa, dizer como fomos construídos e dizer como temos de permanecer são duas afirmações muito diferentes. No início do século XIX, a expectativa de vida no mundo desenvolvido girava em torno dos 40 anos. Saneamento, teoria dos germes, antibióticos e vacinas a levaram a quase 80 em cerca de um século e meio. Nós já dobramos a vida humana uma vez, e o que a dobrou foram coisas modestas: água limpa, sabão e penicilina. Diamandis pede que se guarde esse detalhe para quando alguém disser que dobrá-la de novo é impossível.
A velocidade de escape
O conceito tem nome próprio: Longevity Escape Velocity, velocidade de escape da longevidade. Hoje, a cada ano vivido, gasta-se aproximadamente um ano da vida restante. A LEV é o momento em que a ciência médica passa a acrescentar mais de um ano de vida saudável para cada ano de calendário que se passa. Vive-se um ano, e a ciência devolve treze meses. Passado esse ponto, ganha-se terreno mais rápido do que se perde. Ray Kurzweil, a quem Diamandis credita 86% de acerto nas previsões tecnológicas que fez nos anos 1990, projeta que chegaremos lá por volta de 2033. Diamandis faz questão de separar isso de imortalidade: é o instante em que a linha de chegada começa a se afastar mais rápido do que caminhamos em sua direção. E essa é uma linha de chegada curiosa: poucos de nós estamos, de fato, preparados para cruzá-la, e a maioria deseja, no íntimo, que ela siga se afastando pelo maior tempo possível.
O que sustenta a data de 2033, em vez de relegá-la ao delírio, é o encontro entre biotecnologia e inteligência artificial. O corpo humano tem 40 trilhões de células, cada uma com bilhões de reações químicas por segundo; nenhuma mente humana modela isso, mas a IA começa a conseguir. A linha de pesquisa mais provocadora é a reprogramação epigenética: reverter a idade biológica de uma célula sem alterar seu DNA, usando três dos quatro fatores de Yamanaka, os que renderam o Nobel de 2012, e deixando de fora justamente o que se associa a risco de tumor. Na imagem de Sinclair, trata-se de reinstalar o software da célula envelhecida em vez de trocar o hardware. A Life Biosciences, que ele cofundou, recebeu autorização da FDA em janeiro de 2026 e aplicou a terapia no primeiro participante em junho, no ensaio inaugural de reprogramação epigenética parcial em seres humanos, voltado a neuropatias ópticas. Não está sozinha: no mesmo mês, a NewLimit, cofundada por Brian Armstrong, levantou US$ 435 milhões para levar suas próprias terapias de reprogramação aos testes em humanos.
As previsões mais ousadas vêm das pessoas que constroem a IA mais poderosa do planeta. Demis Hassabis, o Nobel que dirige o Google DeepMind, lançou a Isomorphic Labs com a meta declarada de curar toda doença. Dario Amodei, cofundador e CEO da Anthropic, escreveu que uma IA poderosa poderia comprimir um século de progresso biológico em cinco a dez anos e dobrar a expectativa de vida humana, para cerca de 150 anos. A lógica é histórica: já dobramos uma vez, de 40 para 80, e chegar a 150 seria seguir a mesma tendência, agora com a IA ocupando o lugar que coube ao saneamento e aos antibióticos. O XPRIZE Healthspan, a maior competição da história do XPRIZE, oferece US$ 101 milhões a quem devolver de 10 a 20 anos de função muscular, cognitiva e imunológica a pessoas de 65 a 80 anos, em um único ano de tratamento.
Uma ressalva necessária: são previsões, não fatos consumados, e previsões sobre o futuro erram o tempo e a magnitude com frequência. Mas mesmo o cético mais disciplinado precisa fazer uma conta de assimetria. E a assimetria, aqui, diz respeito às 180 pessoas do outro lado daquele convite.
A conta que muda tudo
No Brasil, a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024, a maior já registrada pelo IBGE, e continua subindo. Quem alcança os 60 hoje, no país, já vive, em média, bem além dos 80. Um servidor que se aposenta agora, por volta dos 60, entrega à instituição perto de quatro décadas de trabalho. Segundo o relógio antigo, a aposentadoria seria o arremate: um quarto, talvez um terço da vida, vivido em desaceleração.
Sobre esse quadro pesa a tese de Diamandis. Se Kurzweil estiver certo, em 2033 essas mesmas pessoas terão apenas 65 a 70 anos. Estarão exatamente na faixa etária que o XPRIZE Healthspan escolheu como alvo. A preparação para a aposentadoria deixa de ser preparação para um terço da vida e passa a ser preparação para a metade dela. Se apenas uma fração das promessas da longevidade se cumprir, para bem mais do que isso. Alguém que trabalhou uma vida quase inteira para chegar até aqui pode ter pela frente vinte e cinco anos e, no limite do que esses cientistas projetam, uma segunda existência de duração comparável à primeira. Estamos ajudando pessoas a inaugurar uma segunda vida adulta para a qual nenhuma geração anterior teve manual.
O recurso que vai faltar
Quando a aposentadoria durava dez ou quinze anos, era possível, ainda que equivocado, tratá-la como um problema sobretudo financeiro e de saúde. Junte recursos, cuide do corpo, descanse: era o bastante quando o horizonte era curto. Mas ninguém descansa por vinte e cinco anos, nem preenche meia vida adulta só com lazer. Estender a duração de um capítulo sem propósito não produz serenidade; produz um declínio mais longo. A conta financeira, por mais importante que seja, tem limite: o recurso que se torna escasso ao longo de três décadas de vida pós-carreira não é o dinheiro. É o sentido.
A ciência da própria aposentadoria vinha, discretamente, dizendo isso. Uma revisão publicada em 2025 no The Gerontologist registra que a preparação para a aposentadoria se concentra quase exclusivamente na dimensão financeira, embora o trabalho seja uma das grandes fontes de sentido da vida adulta, e que dinheiro sozinho não garante uma aposentadoria significativa. Sabe-se que o senso de propósito tende a declinar com a idade quando deixado à própria sorte, e que vínculos e pertencimento predizem o bem-estar na transição tanto quanto a saúde e as finanças. Esses achados já valiam para uma aposentadoria de quinze anos. Para uma de trinta ou cinquenta, passam a ser a questão central.
Por que a inteligência emocional e a existencial se tornam inevitáveis
Dedico-me, há mais de duas décadas, a duas capacidades humanas que sempre me pareceram importantes e que, à luz dessa conta, se tornam inescapáveis. Elas aparecem aqui como consequência lógica do que os números dizem.
A primeira é a inteligência emocional: a capacidade de reconhecer, compreender e ressignificar as emoções, os modelos mentais e os hábitos que uma transição mobiliza. Sair do papel que organizou a vida por quarenta anos e recomeçar é uma passagem sem treino prévio. Ela traz luto, ambivalência, medo e uma desorientação que o dinheiro não resolve. Enfrentar isso com lucidez é uma habilidade, e habilidades se desenvolvem.
A segunda é o que chamo de inteligência existencial: a capacidade de conduzir a própria vida a partir do sentido, transformando valores, pertencimento, consciência da finitude e autotranscendência em escolhas concretas, rotinas, vínculos e contribuição. Se a aposentadoria fosse um breve desfecho, seria um luxo. Diante de vinte e cinco, talvez cinquenta anos a preencher, ela se torna infraestrutura de sobrevivência. A pergunta sobre o que farei para me distrair até o fim perde sentido diante de outra: quem escolho me tornar ao longo de uma segunda vida inteira.
Comecemos aos 120
Diamandis encerra seu ensaio com a frase que, segundo conta, disse no Vaticano: comecemos aos 120, depois renegociamos.
A escolha do número, naquela sala, não foi casual. É no Gênesis que aparece o limite de 120 anos para os dias do homem, e foi esse teto que a tradição ocidental carregou desde então. A demografia chegou perto do mesmo lugar por outro caminho: a francesa Jeanne Calment morreu em 1997 aos 122 anos, e ninguém, em registro validado, passou disso. O que Diamandis faz na frase é tratar esse número como ponto de partida.
Gosto da frase, e quero devolvê-la com um acréscimo. A biologia, se esses cientistas estiverem sequer parcialmente certos, vai nos entregar os anos. O trabalho de preenchê-los não vem junto.
A assimetria é o que nem o cético consegue ignorar. Se os otimistas da longevidade estiverem errados, quem se preparou também no plano emocional e existencial terá vivido melhor os seus quinze ou vinte anos, sem perder nada. Se estiverem apenas metade certos, quem cuidou só das finanças terá construído uma reserva para uma viagem cujo desafio real não chegou a entender, e chegará com dinheiro no banco e sem a menor ideia de aonde ir.
Voltei àquelas 180 pessoas com uma consciência diferente da que tinha ao aceitar o convite. O que elas precisam construir é o preparo para uma extensão de vida que a espécie humana nunca experimentou, em que a pergunta pelo sentido deixou de ser filosofia de fim de tarde. É a habilidade central dos próximos trinta anos. Vale a pena começar a desenvolvê-la agora.
Fontes e notas
As afirmações sobre longevidade, velocidade de escape, reprogramação epigenética, XPRIZE Healthspan e as previsões de Ray Kurzweil, David Sinclair, Demis Hassabis e Dario Amodei têm por base o ensaio de Peter Diamandis usado como referência, e são apresentadas como as posições desses autores, não como fatos estabelecidos.
Taxa de acerto atribuída a Ray Kurzweil: 86%, referente às 147 previsões que fez nos anos 1990 para 2009, conforme o relatório How My Predictions Are Faring (Kurzweil, 2010) e a divulgação feita por Peter Diamandis. Trata-se de autoavaliação, contestada por levantamentos independentes.
Reprogramação epigenética parcial: a Life Biosciences obteve autorização da FDA para o ER-100 em janeiro de 2026 e anunciou a primeira aplicação em ser humano em junho de 2026, em ensaio de fase 1 para glaucoma de ângulo aberto e neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica.
NewLimit: rodada Série C de US$ 435 milhões anunciada em junho de 2026, liderada pelo Founders Fund.
Expectativa de vida no Brasil: 76,6 anos em 2024, a maior já registrada (IBGE, Tábuas de Mortalidade, novembro de 2025). Quem chega aos 60 anos tem expectativa de mais 22,6 anos de vida.
Sobre o sentido na transição para a aposentadoria: Wood e Pachana (2025), The role of meaning in the retirement transition: scoping review, The Gerontologist, 65(6), gnaf076.
O limite de 120 anos aparece em Gênesis 6:3. O recorde validado de longevidade humana pertence a Jeanne Calment (1875 a 1997), 122 anos.
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